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Doutor, como está a agenda para partos?

(Ligia Martoni)

É cada vez mais polêmico o número crescente de cesarianas realizadas no País, procedimento cirúrgico que deve substituir o parto normal quando este oferece risco à mãe ou ao bebê. Isso porque sua banalização, como caracterizam alguns obstetras, tem feito com que médicos e pacientes se submetam a marcar a hora do nascimento com base em agendas lotadas ou à cultura de evitar a dor ou esperar o tempo do parto natural. Diante desse quadro, vale o esclarecimento: a cesariana é, antes de um problema, uma solução que tem salvado muitas vidas no entanto, é primordial que a mulher esteja atenta à real necessidade de fazer a cirurgia e o obstetra, ao que é melhor para a gestante.

Falar dos riscos da cesariana é como comentar os riscos inerentes a qualquer cirurgia, referentes à anestesia ou aos antibióticos que vêm depois do procedimento. Mas a principal função da cesariana é, em vez de trazer riscos, evitá-los. “Por concepção, nunca vai-se fazer uma cesariana sem necessidade. Mas sabemos que hoje, seja pela melhoria da anestesia ou pela qualidade dos antibióticos, o risco da cesariana em relação ao parto normal foi se minimizando, fato que banaliza o procedimento e permite uma ‘promoção social’ do parto”, afirma o obstetra e coordenador da Redução da Mortalidade Materna e Infantil da Secretaria Estadual de Saúde, Elvio Bertolozi.

A cesariana a pedido, como denomina Bertolozi, virou rotina nos consultórios particulares. Prova disso é que, no sistema de saúde suplementar (referente aos planos de saúde), 75% dos partos realizados são cesarianas já pelo Sistema Único de Saúde (SUS), este número varia entre 28% a 30%. O motivo é que, de um lado, a família acredita que a cirurgia oferece menos risco que o parto normal - o que, a menos que haja anomalias no posicionamento do bebê ou nas condições de saúde da mãe, não é verdade e de outro, os médicos estão cada vez mais atarefados e acumulam empregos em locais diferentes. “Hoje são trabalhadores comuns, deixaram de ser autônomos e não podem dispor de tantas horas para fazer um parto”, avalia o coordenador.

O parto natural pode demorar cinco, oito, até quinze horas, contra os cerca de vinte ou trinta minutos usados para uma cesariana. “Por isso, o que estamos discutindo hoje é mudar o paradigma do atendimento obstétrico. O ideal é que se faça o acompanhamento pré-natal adequado e, no momento do parto, se houver necessidade, opta-se pela cesariana. Mas não essa situação de o indivíduo sair para fazer seu parto”, critica.

Segurança

O médico ginecologista Moysés Paciornik destaca que o que pode dar vazão a essa cultura da cesariana é que hoje trata-se de cirurgia muito mais segura que no passado. As anestesias são mais eficientes e envolvem menos riscos, os antibióticos são mais potentes e o corte é muito menor que os de antigamente, que deixavam cicatrizes grandes. No entanto, defende, a cesariana só deveria acontecer em casos específicos, como por exemplo quando a placenta encontra-se na frente da criança quando o bebê é proporcionalmente maior que o canal de parto ou ainda quando está mal posicionado. “Dentro dessas circunstâncias, 95% dos partos deveriam ser normais”, ressalta. A Organização Mundial de Saúde (OMS), porém, reconhece como razoável até 15% dos partos feitos por cesariana.

Mesmo assim, não é o que acontece na prática. “O Brasil é apelidado como o campeão mundial das cesáreas. Em algumas maternidades, o número de cesarianas alcança até 90% de todos os partos realizados no Paraná, inclusive, há hospitais em que as cesáreas respondem por porcentagem semelhante”, denuncia o médico. No entanto, enfatiza, ao mesmo tempo em que tem crescido o número de cesarianas desnecessárias em todo o mundo, aumenta em proporção semelhante o número de campanhas que brigam pelo fim do exagero.

Conhecido mundialmente por defender parto natural

Moysés Paciornik é um desses entusiastas, conhecido internacionalmente por propagar a volta ao natural. O natural, nesse caso, é o parto de cócoras, adaptado dos índios caingangues. “Nessa posição o canal de parto abre 28% a mais que na posição deitada evita problemas com períneo e bexiga baixa, e há menos risco de lesar os músculos. É mais rápido, menos agressivo e bem menos doloroso”, cita. Ele explica ainda que o medo de muitas mulheres relacionado ao parto europeu - o deitado, usualmente praticado -, e que as leva em alguns casos a optar por uma cesariana, poderia ser evitado se a posição cócoras fosse adotada na hora de ter o filho e praticada como exercício antes do nascimento. “A cócoras ajuda a criança a tomar a posição correta, evitando assim também a necessidade de uma cesárea”, acrescenta.

Paciornik dá mais um motivo para a adoção do parto índio: “A cesárea é muito mais perigosa que o parto normal, matando muito mais mulheres e crianças. Oferece mais riscos de hemorragias, infecções e choques anestésicos”. E denuncia que esse tipo de procedimento justifica os médicos no caso de complicações. “A cirurgia os protege. Se há problemas com a cirurgia, dizem que o profissional tentou de tudo se há no parto normal, ele é negligente e displicente”.

Saúde pública e privada tentam reduzir cesarianas

O médico Eduardo de Oliveira, presidente da Federação Brasileira dos Hospitais, afirma que o Ministério da Saúde começou a se mexer, há algum tempo, para diminuir as percentagens de partos cesáreos feitos pelo SUS no Brasil. Algumas medidas foram tomadas para isso, como, por exemplo, a equiparação do valor pago à equipe médica pelos dois tipos de parto (na época do antigo Inamps, os honorários eram praticamente o dobro para partos cesáreos) incentivo ao aleitamento estímulo ao alojamento conjunto entre mãe e bebê e maior conscientização da população carente a respeito do parto normal. Melhorou, mas a percentagem que ronda a casa dos 30% de partos cesáreos pelo SUS ainda é maior que a praticada em países desenvolvidos, principalmente os europeus - onde essa estatística não ultrapassa os 25%.

No campo da saúde suplementar, algumas iniciativas por parte da Agência Nacional de Saúde (ANS) já convocaram os prestadores a diminuir o número de cesarianas. “Para as operadoras, uma incidência alta de cesáreas resulta em alto índice de uso de UTI neonatal, o que significa dizer que gastam mais dinheiro. A criança tem muito mais saúde e há menos complicações para as mães no parto natural”, explica. Além disso, afirma o médico, o parto normal influencia no estímulo à amamentação e evita que a parte imunológica da mãe e da criança fique enfraquecida, fechando as portas às chamadas doenças aproveitadoras.

No caso da saúde suplementar, o programa de qualificação mantido pela ANS há cerca de dois anos - que pontua as operadoras de acordo com a qualidade do serviço prestado - tem como um de seus componentes de melhoria da nota a diminuição do número de cesáreas. As pontuações, no entanto, ainda não foram divulgadas.

Em meio à polêmica, ele propõe a discussão: “Quem é o responsável pela indicação? É o plano ou o médico que deve dizer como os partos serão? Talvez a conduta de grupo globalizada, seja de um hospital ou operadora de saúde, deva superar a conduta individual”. Os hospitais, entretanto, preferem se abster de qualquer imposição. Primeiro, porque a receita no parto cesáreo é maior que no normal e, segundo, porque se insistir demais, compra uma verdadeira briga com sua equipe de obstetras, já que a maior parte prefere marcar o horário do parto. “O resultado é que ficam omissos, acumulando estatísticas que não se comparam a nenhum outro país no mundo”. A média nacional de partos cesáreos nos hospitais brasileiros é de 75%.

Complicações levam à cirurgia

Mas quando o assunto é a periculosidade da cesariana, o coordenador estadual de Redução da Mortalidade Materna e Infantil, Elvio Bertolozi, prefere se abster das estatísticas. Isso porque, ainda que mate mais, é preciso levar em conta que a operação é realizada, em boa parte dos casos, quando há complicações. “Se avaliarmos pacientes boas que fizeram parto normal e cesárea, nesse caso, não há diferença de risco. Agora, no caso de pacientes com morbidade, as estatísticas mostram que a cesariana é mais presente quando mulher ou feto morrem. No entanto, não é por causa da cirurgia, mas sim por causa da doença de base”, ressalva. Entre essas enfermidades, ele aponta as cardiopatias, doenças pulmonares e infecções, que podem interromper a gravidez precocemente e tornar a cirurgia necessária.

Para comprovar isso, ele cita que, de acordo com suas pesquisas, o risco relativo de morte no SUS é de 70 para cada 100 mil crianças que nascem no Paraná. Desses partos, 30% são cesarianas já no sistema privado, o risco relativo de morte é de 15 mulheres para cada 100 mil, sendo que 85% realizaram cesarianas. “Os riscos envolvem muito mais que a operação em si, incluindo aí escolaridade, nível salarial, acesso a maior número de consultas e medicamentos. Por isso, defendemos que deve haver qualidade no atendimento pré-natal”.

O coordenador afirma que o Estado tem investigado ao longo dos últimos anos a mortalidade de mães e crianças e suas causas no Paraná. Segundo ele, os estudos definiram que é preciso aumentar o número de unidades de atenção pré-natal e o atendimento de emergência obstetrícia - as conseqüências, no entanto, devem demorar a aparecer. “Estamos fazendo ambulatórios de gravidez de alto risco, mas só vamos ter visão de resultado no médio a longo prazo”.

O Estado do Paraná - 09/07/2006


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