|
O Custo da Verticalização
Eduardo de Oliveira Secretário Geral da Federação Brasileira de Hospitais
Nos últimos anos, o grande foco da saúde privada do Brasil tem sido a crise vivida pelos hospitais, gerada pela baixa remuneração do Sistema Único de Saúde e pelos problemas no repasse de verbas. Mas a discussão sobre o tema ficou mais ampla desde que se intensificou o processo de verticalização, que consiste na criação de redes próprias de atendimento pelos planos de saúde, com o objetivo de reduzir custos operacionais. Essa forte tendência vem contribuindo para agravar ainda mais os problemas vividos pelos hospitais privados do País.
Apesar de ter ganhado força nos últimos anos, a verticalização da saúde não é um processo recente. Entre os anos 70 e 80, os hospitais começaram a entrar no mercado com seus próprios planos de saúde. Na década de 90, foi a vez das operadoras de planos de saúde começarem a abrir hospitais de rede própria.
Segundo estimativas de mercado, nos últimos dois anos o número de hospitais pertencentes as operadoras de planos de saúde passou de 300 para 500, um crescimento de 66%.
A grande questão desse processo é que, até agora, os benefícios tem sido apenas unilaterais. Apesar de significar redução de custos para as operadoras, a onda da verticalização leva à concentração do mercado e à diminuição da concorrência, e começa a comprometer a sobrevivência de instituições de saúde independentes e a trazer prejuízos aos usuários dos planos.
Para se ter uma idéia, hoje, os hospitais privados são responsáveis por mais de 62% das internações realizadas pelo Sistema Único de Saúde. Em algumas regiões do País, a rede privada ultrapassa 70% dos atendimentos. Com o problema do repasse de verbas pelo SUS, agravado pelo processo de verticalização, os hospitais menores e independentes perdem cada vez mais clientela para a rede controlada por operadoras de grande porte, e alguns correm o risco de fechar as portas por falta de recursos.
Outro fator agravante e a legislação brasileira, que veda o acesso ao capital estrangeiro somente aos hospitais brasileiros independentes, impedindo-os de se modernizar, expandir, fortalecer. Este entrave os empurra na direção da defasagem tecnológica, fragilizando-os economicamente pela impossibilidade de competir com os hospitais das empresas verticalizadas que podem contar com capital estrangeiro.
Para evitar o domínio da verticalização e a falência das instituições independentes, a solução tem sido buscar alternativas, especialmente com parcerias, como a que aconteceu no fim de 2009 entre a Gama Saúde e a Federação Brasileira de Hospitais.
A união das empresas permite que os hospitais de pequeno e médio porte possam contratar o serviço de uma operadora organizada e reduzir os custos dos processos administrativos, o que vai aumentar significativamente o seu poder de atendimento, além de estimular a competitividade no setor e oferecer serviços em nível nacional a custos mais baixos aos usuários.
A receita inédita não será suficiente para amenizar os problemas da saúde privada no país, mas vai tentar remediar, ao menos, os prejuízos dos hospitais de pequeno e médio porte, para ampliar a qualidade de atendimento aos usuários. Afinal, no processo de verticalização ainda não existe uma linha divisória entre o resultado econômico e a qualidade da assistência.
Fonte: Jornal do Commercio/RJ: 24/06/2010 |