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BA: Crise na saúde gera sobrecarga para os médicos
Alexandre Lyrio
Plantonistas decidem pela vida dos pacientes em meio ao caos no sistema estadual Com pele rasgada em fratura exposta, o tornozelo do pequeno Lucas, 5 anos, sangra. Enquanto recebe o primeiro atendimento, uma maca gélida e sem colchão atravessa os corredores, a transportar todo o peso de seu Francisco, 78, com fortes dores no peito. Assim que submetidos a cirurgia, ambos precisarão de uma UTI. O problema é que só há uma vaga. O julgamento cabe a um experiente ortopedista, que está na 18ª hora de um plantão que dura o dia inteiro. Não se sabe por qual dos pacientes o médico vai optar. Sabe-se apenas que a decisão deve ser rápida e definitiva. Envoltos em situações extremas, os plantonistas fazem a linha de frente do atendimento médico. Nas duas maiores unidades de urgência do estado, o Hospital Geral (HGE) e o Hospital Roberto Santos (HRS), os médicos plantonistas estão à mercê da superlotação, das condições desfavoráveis de trabalho e até do desrespeito de alguns pacientes. Na véspera do Dia Nacional do Médico, comemorado amanhã, a atual crise da saúde também sobrecarrega os profissionais que exercem a função mais estressante da medicina. É no plantão que se sofre os maiores dissabores da profissão. Ali, a sobrecarga física e emocional é maior que em outras funções. Rápido passeio pelos setores de ortotrauma e suturas do HGE não demonstra somente o infortúnio dos pacientes, mas também o cansaço dos médicos. “O desgaste é enorme. Há hospitais em que o cirurgião sai de uma cirurgia e entra na outra. São horas e horas seguidas, realizando atividade de grande precisão e alta responsabilidade”, observa um dos cinco cirurgiões plantonistas do HGE, Carlos Costa. Na emergência, em alguns momentos é necessário que os médicos decidam entre a vida de um e a morte do outro. Quando a quantidade de leitos de UTI é inferior ao número de pacientes, o profissional defronta-se com conflito ético. Mas não há tempo para hesitações. Adotando-se critérios específicos, inclusive previstos em protocolo, é possível fazer a escolha mais acertada.
“Avalia-se aspectos como a capacidade de sobrevida e a idade de cada paciente. Entre um doente de 20 anos e outro de 80, a gente tem que priorizar o de 20, infelizmente”, explica a coordenadora médica do plantão do HGE, Conceição Gonzalez, que está à frente de 25 médicos, entre cirurgiões, ortopedistas, pediatras, clínicos, oftalmologistas, otorrinos e anestesistas. Mesmo uma equipe tão grande e diversa pode ter dificuldade no atendimento de casos extremos, em que o número de pacientes pode triplicar de forma repentina. Tragédias imprevistas costumam deixar o pronto-socorro em alvoroço. No caso mais recente, quando um terreiro de candomblé explodiu em chamas, 27 pessoas de uma só vez foram recebidas no setor de queimados do HGE. Apesar de três pacientes não terem resistido, o horror poderia ser maior se a solidariedade médica não superasse a precariedade do atendimento. “Até a diretoria desceu para atender. Médicos de outros plantões se escalaram como voluntários. Não fosse assim, não iríamos dar conta”, acredita Conceição. Aumento de trabalho nos hospitais A estagnação da rede hospitalar pública é apontada como a causa principal do excesso de trabalho. Além de não terem sido criadas novas unidades para atender a demanda, os antigos hospitais também não acompanharam o crescimento da população. “Um hospital como o HGE tem mais de 20 anos. Por mais bem equipado, está obsoleto”, opina o secretário estadual de saúde, Jorge Solla, durante audiência na Câmara de Vereadores para discutir o momento de crise. O excesso de pacientes e a sobrecarga sobre os médicos cria uma relação de tensão entre médico e paciente. Nesse ínterim, perde-se o respeito. Não são poucos os relatos de agressão aos médicos plantonistas. “O atendimento hoje é feito em escala industrial. Não existe mais o médico da família, e poucos atendem em consultório”, observa uma das pediatras plantonistas do HGE, Maria do Carmo Ribeiro.
A maioria dos plantonistas leva anos na mesma função. Quando atingem certa idade estão desgastados, não demonstram a mesma agilidade e capacidade de tomar decisões de antes. A categoria reclama por diretrizes que impeçam a perpetuação dos médicos em plantões. “Depois de certo tempo no pronto atendimento, os médicos deveriam ser remanejados para ambulatórios ou enfermarias”, defende Carlos Costa, que há 25 anos realiza a mesma função nos plantões da vida. Secretário admite déficit médico O próprio secretário estadual de saúde, Jorge Solla, reconhece que os hospitais públicos têm uma capacidade limitada de atender à demanda de pacientes. Colocando as condições de saúde do estado entre as sete piores do país, Solla ofereceu dados que demonstram o déficit de médicos nas unidades. “A Bahia só tem mais médicos por habitantes que o Piauí, o Maranhão e o Rio Grande do Norte”, disse o secretário. A atual falta de anestesistas nos hospitais serve de exemplo ao cálculo de Jorge Solla. Ao migrar para os hospitais particulares, comprometem a logística do atendimento de urgência nas unidades públicas. “Eles estão fugindo dos baixos salários do estado. Trabalham em grupo e vão para os hospitais particulares”, explica Conceição Gonzalez, coordenadora médica do plantão do HGE, onde trabalham três anestesistas. Crise contribui para excesso Não bastasse o dia-a-dia de enorme desgaste, os plantonistas ainda são prejudicados por sucessivos conflitos administrativos e políticos. O processo de crise que se instalou na saúde do estado e do município tem impacto direto nas emergências dos grandes hospitais. No HGE, durante a recente suspensão do atendimento ao SUS nas clínicas particulares, o movimento teve um incremento de pelo menos 30%.
No Hospital Roberto Santos, onde diariamente chega enorme quantidade de doentes do interior, os corredores ficaram superlotados. Nos piores dias da crise, os hospitais públicos foram obrigados a atender pacientes que não têm o perfil de urgência. “Recebemos pacientes que não têm que estar aqui. Gente com pequenos traumas, com necessidade de exames preventivos. Nós estamos aqui para atender os casos de maior gravidade”, revela o diretor médico e plantonista do Hospital Roberto Santos, Eduardo Fonseca. A própria ineficiência da rede municipal de postos de saúde também contribuiu para o caos. Aliado a isso a cultura hospitalar do baiano faz com que uma enorme quantidade de gente esteja na mesma hora, no mesmo local. “As pessoas acham que tudo se resolve no hospital. Estamos adequando o nosso atendimento ao nosso perfil, com uma triagem maior”, assegura o médico. Sindicato luta por concursos A audiência para discutir a crise da saúde, realizada ontem na Câmara de Vereadores, deu voz ao Sindicato dos Médicos(Sindimed), que cobrou a realização de concursos públicos e o aumento dos salários dos profissionais que trabalham na rede estadual. Componentes da mesa, os secretários municipal e estadual de saúde ouviram críticas ao atual valor bruto do salário dos médicos com contrato fixo. Agora terão que analisar os cálculos do Sindimed. “O piso almejado pela Federação Nacional de Médicos (Fenam) é de R$3.481,76 para jornada semanal de 20h. Hoje, ganha-se R$493”, informa o presidente do sindicato, José Cayres. Os médicos também atacaram o sistema de Reda, que envolve a contratação temporária. Propuseram a realização de concursos com salários mais próximos dos próprios temporários, que hoje é de R$3.188. “Queremos avançar para os concursos. Os médicos do Reda ganham bem, mas são transitórios no cargo”.
Fonte : Correio da Bahia : 17/10/2007
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